FEIPOL-SUL

FEDERAÇÃO INTERESTADUAL DOS TRABALHADORES POLICIAIS CIVIS DA REGIÃO SUL

Fernanda Canofre (Sul 21)

O racismo de todos os dias, expresso nos números do mercado de trabalho. A violência doméstica e institucional. O perfil do sistema prisional brasileiro. As ameaças que podem acabar com demarcações de terras quilombolas. A intolerância às religiões de matriz africana. Os cortes em serviços, vindos em forma de PECs e PLs. Essas foram algumas das pautas reunidas dentro da mesma marcha, neste 20 de Novembro, em Porto Alegre, na celebração do Dia Nacional da Consciência Negra.

Movimentos sociais, organizações estudantis, sindicatos, representantes de religiões de matriz afro e escolas de samba, quilombolas, todos caminharam juntos desde o Largo Glênio Peres, em frente ao Mercado Público, até o Largo Zumbi dos Palmares. Pelo caminho, os manifestantes alternavam letras de samba enredos clássicos, com gritos políticos de resistência. De “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós” a “Povo negro unido, povo negro forte, que não teme a luta, que não teme a morte”.


Foto: Guilherme Santos/Sul21

“As mulheres negras foram escravizadas e sofridas. Me sinto feliz de estar representando a mulher negra e o respeito [que ela merece]”, diz Giulia Pacheco, segunda porta-estandarte da escola Imperatriz Dona Leopoldina. Nas pinturas do rosto e na dança, ela celebrava herança. “A gente tem que relembrar todas as pessoas que lutaram pelo povo negro, como Dandara. Tem que lembrar da cultura negra e parar com o racismo. Todo mundo é igual”.


Giulia é segunda porta-estandarte na Imperatriz Dona Leopoldina | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Em Porto Alegre, porém, isso ainda precisa ser verdade. A capital gaúcha é a mais segregada do país, numa consequência do seu processo de urbanização que expulsou os negros do centro da cidade.

Na mesma capital onde o Grupo Palmares, do poeta Oliveira Silveira e amigos, levantou a data da morte de Zumbi como o dia que o Brasil deveria lembrar e celebrar seu povo negro, o 20 de novembro não é feriado. Ainda assim, graças a eles, outras quase mil cidades em todo o país param para celebrar a data. O movimento cultural iniciado por eles, em plena ditadura militar, nos anos 1970, serviu ainda para colocar em xeque a ideia de que o Brasil existe como uma “democracia racial” desde sempre.

Os representantes de religiões de matriz africana, que puxaram a marcha, que o digam. Segundo Mãe Paty de Oxum, que lidera um terreiro com todas as matrizes, na Lomba do Pinheiro, a intolerância religiosa contra os locais de culto tem crescido nos últimos anos. Ela diz que alguns amigos tiveram de fechar as portas dos terreiros e mudar de endereço porque evangélicos estavam colocando sal grosso no local.

“Como povo de matriz africana, temos lutado muito contra a intolerância. Dentro dos nossos terreiros mesmo, a gente está sendo agredido. Quando sai para a rua, tu está sendo ofendido. Não pode usar teu turbante, fazer tua oferenda, largar nos lugares próprios para isso, porque o povo vem contra e debate a nossa religiosidade até mesmo sem saber”, conta ela.

Mãe Paty comanda o mesmo terreiro há 20 anos. Antes dela, a mãe e a avó tomaram conta do local, numa tradição que leva mais de 70 anos na família. Com o mesmo endereço. “A gente traz uma cultura que é dos nossos ancestrais, nas religiões. Quando a gente fala em ancestralidade é a origem do povo que vem junto com a gente”.


Foto: Guilherme Santos/Sul21

Ameaça à terras quilombolas 

Além da intolerância, a Marcha Zumbi Dandara, deste ano, trouxe muitas pautas políticas. Entre as questões, faixas lembravam a discussão da ação de inconstitucionalidade 3239, que ainda espera ir à votação no Supremo Tribunal Federal (STF), e que pode afetar todas as demarcações de terras quilombolas no país. Na mesma época em que o número de assassinatos tem crescido entre essa população.

“Nosso povo, todo dia, tem que estar em luta, tem que estar gingando. Todos os dias temos que ser capoeira”, diz Luis Rogério Machado, liderança do Quilombo dos Machado. “Essa marcha representa uma luta do povo negro, como um pedido de basta. Basta de racismo, de intolerância religiosa, de tudo que vem contra o nosso povo. Fora também os ataques às comunidades indígenas e quilombolas, como o PL 31, a PEC 215, a ADI 3239”.

O quilombo ao qual ele pertence, apesar de já ter recebido a titulação da Fundação Palmares, ainda aguarda a conclusão do processo de demarcação.

“Junto com a ADI, veio o Marco Temporal. Então, quer dizer que a gente não tem ancestralidade, não tem História, que nossas raízes sumiram? A data de hoje é de luta, de olhar pra frente, de dizer que ‘estamos aqui’ e que qualquer injustiça contra nós – povo negro, pobre, de favela – não deixamos passar”, defende Machado.

Segundo estimativa da Brigada Militar, cerca de mil pessoas participaram da Marcha. Os organizadores estimaram um pouco acima, por volta de 1,6 mil. Na chegada ao Largo Zumbi dos Palmares, o canto era mais uma vez em tom de liberdade e lembrando que todo lugar pode virar Palmares.

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Foto: Guilherme Santos/Sul21

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