FEIPOL-SUL

FEDERAÇÃO INTERESTADUAL DOS TRABALHADORES POLICIAIS CIVIS DA REGIÃO SUL

Luís Eduardo Gomes (Sul 21)

Centenas de estudantes e funcionários da UFRGS se reuniram às 12h30 desta segunda-feira, 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra, diante da Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para posar para uma foto coletiva intitulada “Sim, representatividade importa”. Eles seguravam balões em que se lia: “UFRGS negra”. A ideia dos organizadores era mostrar que a universidade tem cor, ou melhor, uma pluralidade de cores e não só a branca, que dominou majoritariamente os campus da federal até que as políticas afirmativas passassem a ser adotadas no final da década passada. Mas também teve outra contribuição, a de mostrar para muitos estudantes negros que eles não estão sozinhos, que podem ser poucos em determinados cursos, mas que já são muitos – e deveriam ser mais – dentro da UFRGS.

Uma das organizadoras da foto, a estudante do 2º semestre do curso de Ciência Sociais Morgana Almeida, 19 anos, diz que o evento teve origem em outra foto coletiva tirada no mês de setembro, que reuniu no Campus do Vale estudantes negros que ingressaram na UFRGS no primeiro e segundo semestres de 2017, reunindo cerca de 50 pessoas. A partir daquela ocasião, estudantes, funcionários e servidores negros da universidade passaram então a organizar uma nova imagem coletiva, como parte das comemorações do novembro negro na Faculdade de Educação (Faced).


Morgana foi uma das organizadoras da foto coletiva | Foto: Maia Rubim/Sul21

“A primeira foto tinha o enfoque de mostrar que nós existimos dentro da universidade, mas também de debater a questão da solidão do negro dentro da UFRGS, dentro dos seus cursos. Eu acho que essa foto de hoje meio que rebate essa solidão. A gente reuniu quase 200 pessoas”, diz a jovem.

O jornalista Wagner Machado, que ajudou a organizar o evento pela Faced, onde trabalha, destaca que a participação da comunidade negra, que para ele foi de cerca de 300 pessoas, superou as expectativas – esperava cerca de 50, como na foto dos calouros – e teve o papel importante de demonstrar que a UFRGS está se tornando um espaço plural. “Essa negritude toda aqui presente comprovou que tem lugar para o negro e que cada vez vai ter mais”, diz. “A ideia do novembro negro é mostrar que a universidade tem cor e é a cor do Brasil. O país é miscigenado, não é branco somente, é de várias etnias. Aqui, os negros da universidade puderam se ver representados. Tu imagina que os cotistas estão espalhados por toda a universidade, temos em torno de 50 mil alunos e somos cerca de 3,5 mil. É pouco, mas já é alguma coisa”, complementa.

Em seu primeiro ano na universidade, Morgana afirma que o impacto inicial sentido em sua caminhada acadêmica foi o de sentir que ainda estava “muito sozinha”, mas que isso foi seguido pela intenção de buscar a aproximação com a comunidade negra. “Por mais que eu tenho conseguido superar várias barreiras, ser a terceira de uma família de quase 100 pessoas a entrar na UFRGS, ainda me via muito sozinha. O segundo momento foi de encontrar os meus dentro da universidade e conseguir organizar para que a gente, como negros, atue em um coletivo que luta pela igualdade racial ou pelo menos pela permanência dos negros e negras dentro da universidade”, diz.


Wagner Machado avalia que a participação superou as expectativas | Foto: Maia Rubim/Sul21

Onde estão os professores negros?

As estudantes Myrella Centro e Mayara Gomes da Silva, do 3º semestre do curso de Enfermagem, destacam a integração dos cotistas dentro da universidade ainda passa pela necessidade de romper barreiras cotidianamente.”É complicado ser negra, mulher e estar querendo romper barreiras dentro da Enfermagem, onde as pessoas têm um dogma, seguem aquilo à risca e não te dão abertura. Hoje mesmo a gente teve uma aula sobre a população negra e a professora não sabia nem como chamar aquela população, aquele indivíduo negro. A pessoa que está te dando uma aula não sabe lidar, não sabe transpor aquilo, ela não sabe o que é ser negro dentro da universidade”, diz Myrella.

Mayara afirma que uma das dificuldades para uma maior integração dos alunos negros é justamente o número ainda pequeno de professores negros dentro da universidade. “São muito poucos professores negros e, mesmo com as cotas, ainda são muito poucos alunos negros na universidade. Por mais que não pareça, por mais que o racismo seja hoje criminalizado, é estranho, a gente sente que tem muitas pessoas que acham que o nosso lugar não é aqui, que a gente está tirando o lugar delas. Eles estão acostumados com negros em lugares subalternos, então tu ter um professor, tu ter um negro estudando e disputando um cargo de igual para igual é difícil para algumas pessoas”, diz.


Mayara (esq.) e Myrella destacam que o pequeno número de professores negros é um dificultador para a integração | Foto: Maia Rubim/Sul21

A jovem destaca que eventos como a foto coletiva são importantes para dar maior visibilidade à comunidade negra e para que os próprios cotistas possam se reconhecer. “Nosso primeiro comentário foi: ‘como tem negros na UFRGS!’A gente não consegue ver. São 5, 10 alunos num curso de cento e poucos, em turmas separadas. Como pode 54% da população ser negra e, numa universidade pública, a grande maioria ser branca? Tem uma coisa errada aí, né? É com isso que a gente quer romper”, afirma Mayara.

As estudantes salientam que os movimentos negros têm papel central, não só na questão da visibilidade, mas para avançar as pautas e reivindicações dos cotistas. Morgana que pertence ao Afronte [movimento não vinculado à universidade], destaca por exemplo o papel que o coletivo Balanta teve recentemente ao pressionar a Reitoria para a adoção de medidas que intensificam o combate a fraudes no ingresso por cotas.

Já Mayara fala da necessidade de união dos negros para que possam se fortalecer dentro da universidade e, consequentemente, fortalecer a política de cotas. “A gente precisa se unir para se fortalecer, ver que tu está aqui por que tu mereceu, não por um favor, mas porque existe uma divida histórica. Se fortalecer no sentido de a gente se reconhecer como negro e lutar por espaços maiores, para também conscientizar outras pessoas”, afirma.


Foto: Maia Rubim/Sul21

Foto: Maia Rubim/Sul21